11 de dezembro de 2010

03:48a.m

A insônia, quando vem, bate três vezes na janela. Se faz de pedrinhas do jardim, que mãos apaixonadas jogam para acordar o amor que sonha. Mas quando a menina acorda, remexe lençóis, procura o calçado e pisca forte para enxergar a tranca da janela, a insônia se apressa, escala, e quando a janela se abre por completo, entra o hálito da madrugada, e com ele, a insônia, feliz da vida porque encontrou um abrigo pra passar a noite. Não há ninguém no jardim. A menina sempre pensa que ouviu uma voz em sincronia com algum instrumento de cordas, mas nem jardim a casa tem, quanto mais apaixonado fazendo serenata. Fecha-se a janela, mais a gaveta logo se abre. Com sono tênue, dormem ali objetos, filhos da nostalgia, que estão sempre atentos à insônia que engana a menina. O álbum de fotos é o que tem o sono mais leve. Abre-se assim que a gaveta faz um barulho triste de madeira sofrida. E a menina, que não sabe mais como dormir, tampouco como voltar ao sonho que acendia o espírito, acorda também o passado e os seus antigos personagens. Estão todos com os olhos vivos, revirando momentos que foram os melhores e os piores. Instantes que dormiam, mas que a insônia também fez acordar. Ninguém mais dorme, nem a sorte, que resolve ajudar e manda a insônia procurar outro alguém pra atormentar a noite. O álbum volta para a gaveta, a gaveta se fecha, a janela é trancada, o vento atrasado bate de frente com o vidro e adormece lá fora. A menina apaga a luz fraquinha do abajur, o abajur dorme. Deita na cama, abraça a bagunça dos lençóis, os lençóis dormem. Repousa o corpo, fecha os olhos, fecha a mente, o coração... E dorme.

2 comentários:

Anônimo disse...

Você quer me fazer dormir ou me deixar de boca aberta até não conseguir? Obrigado pela inspiração!

Unknown disse...

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